Diagnóstico e tratamento de IMO!
Supercrescimento Metanogênico Intestinal:um desafio maior!

Dra.Loana Heuko Valiati // 25/02/2025
Categoria: IMO, intestino

 

 

 

IMO significa supercrescimento de arqueias produtoras de gás metano no intestino. As arqueias são um grupo de microrganismos semelhantes às bactérias, mas distintos evolutivamente.

Isso significa que o IMO não é o mesmo distúrbio que o SIBO por dois motivos: tipo de microrganismos e sua localização!

O SIBO ocorre por supercrescimento de bactérias no intestino delgado e o IMO ocorre por supercrescimento de arqueias no intestino delgado e/ou no intestino grosso.

O conhecimento atual sobre a microbiota intestinal permitiu uma melhor compreensão sobre os desequilíbrios de fungos, bactérias e arqueas no intestino e como este tipo de disbiose pode afetar a nossa saúde.

Com isso, pacientes com sintomas de inchaço, desconforto, e alteração no trânsito intestinal, que antes não recebiam um diagnóstico, pois apresentavam grande parte dos seus exames normais, hoje podem receber um tratamento efetivo após a investigação da microbiota intestinal.

Era esse o elo que faltava para o entendimento de muitas condições intestinais: a MICROBIOTA!

 

 Quais são os sintomas do IMO?

Os estudos científicos comprovam que o gás metano é capaz de lentificar os movimentos do intestino, por isso, o metano é associado com constipação intestinal.

Sendo assim, os sintomas mais comuns do IMO são inchaço, grande quantidade de gases, desconforto ou dores abdominais e até eructações (arrotos).

Em relação ao trânsito intestinal observamos uma tendência para a constipação, isso nos pacientes que apresentam somente o IMO.

Mas segundo pesquisas médicas atualizadas, 55% dos pacientes apresentam IMO e SIBO simultaneamente, o que pode conferir alternância entre constipação e fezes mais amolecidas em alguns pacientes, isso dependerá do gás predominante formado.

 

 

 

Como o IMO é diagnosticado?

O diagnóstico pode ser feito por endoscopia e aspirado do conteúdo intestinal, mas esse procedimento é caro, exige o uso de um material especial, é invasivo e requer sedação.

Pela dificuldade de cultura e armazenamento adequado das fezes, também não é aconselhável diagnosticar IMO apenas com um exame de cultura de fezes, pois o IMO pode ocorrer somente no intestino delgado em alguns casos, e as amostras de fezes que são coletadas a partir do reto (intestino grosso), podem não refletir adequadamente o que está ocorrendo à nível de intestino delgado.

O que mais comumente se utiliza para o diagnóstico, tanto para SIBO quanto para IMO, são os testes respiratórios.

Os testes respiratórios se tornaram mais indicados devido a facilidade de preparo, não são invasivos, não há necessidade de sedação e podem ser realizados a nível de consultório.

Hoje, temos protocolos internacionais padronizados, que orientam o modo de realização dos testes respiratórios e interpretação de leitura.

Portanto, são testes confiáveis e amplamente aceitos pela literatura médica para uso no diagnóstico e acompanhamento dos pacientes com doenças da microbiota intestinal.

A partir de dezembro de 2024 a Anvisa liberou o aparelho que faz a medição dos dois gases, com isso, conseguimos realizar em um único exame a leitura de hidrogênio e metano, o que permite o diagnóstico de SIBO/IMO no mesmo teste.

IMPORTANTE verificar se a clínica onde você realizará o exame já possui o aparelho que faz a leitura dos dois gases! O teste para avaliação completa seria o teste respiratório de hidrogênio e metano expirados com duração de 120 minutos (2horas).

 

Qual seria o tratamento para o IMO?

O tratamento para o IMO é desafiador. A começar pelo tipo de medicamento utilizado para controlar o supercrescimento de arqueias.

Para as bactérias prescrevemos antibióticos, para os fungos antifúngicos, mas para as arqueias, o que utilizar?

Nestes casos de crescimento excessivo de arqueias metanogênicas o orientado é a associação de antibióticos, juntamente com suplementação intestinal e dieta.

A ideia é que isso remova o excesso de arqueias, permitindo assim que bactérias benéficas repovoem o espaço vazio. No entanto, os antibióticos funcionam como uma ogiva nuclear, eliminando tudo o que há no intestino.

Isso também pode levar à remoção de bactérias benéficas, prejudicando o tempo de recuperação intestinal.

A dieta poderá auxiliar na recolonização bacteriana após o uso de antibióticos.

A combinação de antibióticos para tratar o IMO seria a Rifaximina associada a Neomicina ou Metronidazol. Ao contrário da Rifaximina, tanto a Neomicina quanto o Metronidazol são antibióticos de ação sistêmica, o que significa que afetam outras áreas do corpo além do intestino, o que pode causar mais efeitos colaterais.

 

 

 

Em alguns casos, prescrevemos medicamentos para a motilidade, como procinéticos, para ativar a função intestinal e prevenir a recorrência. Laxantes também podem ser prescritos para tratar a constipação em alguns casos, mas por um breve período. 

Em termos de dieta e estilo de vida, há uma série de fatores a considerar:

1. Certifique-se de beber bastante líquido, pois isso ajudará a hidratar as fezes, facilitando a sua eliminação. Tente consumir de 2 a 3 litros por dia, e crie o hábito de sorver a água, isso significa beber um copo de água lentamente.

2. Aumente gradualmente a ingestão de fibras leves e não fermentáveis na dieta. Fibras fermentáveis podem exacerbar os sintomas associados ao  IMO. Você pode tentar adicionar kiwis duas vezes ao dia ou adicionar gradualmente sementes de chia/linhaça.

3. Distribua a ingestão de fibras uniformemente ao longo do dia.

4. Mantenha-se ativo – a atividade física pode ajudar a estimular o intestino, tratando e prevenindo a constipação.

Quando você se movimenta o seu intestino se movimenta também!

Além disso, um agente procinético pode ser adicionado à terapia antimicrobiana para auxiliar a motilidade intestinal. Os procinéticos podem auxiliar no alívio de gases e sintomas de inchaço. O gengibre, por exemplo, é um procinético popular e natural, que demonstrou estimular o esvaziamento gástrico quando administrado aos pacientes com IMO.

 

Suplementos para IMO!

Tratamento Natural

 

 

 

A fitoterapia é considerada eficaz no tratamento do IMO. Caso o paciente opte por um tratamento antimicrobiano à base de ervas, é importante observar que a duração será de 6 a 8 semanas, diferentemente do tratamento de 15 dias dos antibióticos convencionais.

As ervas medicinais escolhidas devem ser indicadas pelo gastroenterologista responsável pelo seu atendimento, vamos citar aqui algumas mais comumente utilizadas.

Assim como acontece no tratamento com os antibióticos convencionais, vários tratamentos com os antibióticos fitoterápicos podem ser necessários para um tratamento eficaz.

Combinações dos seguintes produtos botânicos podem ser consideradas para protocolos de tratamento do IMO à base de ervas: 

Alicina

Berberina 

Óleo de orégano emulsionado 

 

Plano alimentar para IMO

Muitos pacientes com IMO apresentam sintomas digestivos relacionados às refeições, pois os metanógenos fermentam os carboidratos da dieta, resultando em aumento da produção de gás metano que leva à gases e inchaço, principalmente no final do dia, dor abdominal e constipação. 

A dieta normalmente utilizada para disbioses como o IMO é a dieta low Fodmap, com eliminação das fibras, que são os alimentos preferidos das arqueias, evitando assim o surgimento dos sintomas.

Uma coisa importante sobre a dieta é que ela não funciona como um tratamento que possa diminuir a quantidade de microrganismos, mas sim redução de sintomas, desinflamação intestinal, correção de deficiências nutricionais e recolonização do intestino com bons microrganismos.

 

 

 

IMO tem cura?

Aproximadamente 45% dos pacientes podem apresentar outro episódio de IMO, este período varia de meses a anos. Implementar estratégias para ajudar a reduzir a probabilidade de recidiva do IMO é fundamental.

A IMO deve ser vista como um sintoma decorrente de outro desequilíbrio gastrointestinal, e às vezes, até extraintestinal.

Muitas são as causas do IMO e cada uma tem seu respectivo tratamento, este artigo não conseguiria discutir cada uma delas.

O que ajuda o gastroenterologista a identificar a causa do IMO é o histórico médico detalhado e alguns exames complementares que deverão ser solicitados para diagnosticar a raiz do problema. Exames de imagem, de sangue, fezes, urina, testes funcionais ou genéticos poderão ser solicitados.

Para evitar as recidivas, tratar a causa!

 

 

 

Algumas condições associadas ao IMO:

1. Constipação crônica

2. Doenças inflamatórias intestinais: doença de Crohn ou retocolite ulcerativa

3. Alergias e intolerâncias alimentares

4. Doença celíaca

5. Síndrome do intestino irritável

6. Diabetes

7. Hipotireoidismo

8. Síndrome de Ehlers-Danlos

9. Endometriose

10. Cirurgias abdominais (bridas ou aderências)

11. Uso de medicamentos para dor como os opióides  ou antidepressivos

O IMO não tratado pode exacerbar ou contribuir para o desenvolvimento de outros distúrbios gastrointestinais funcionais, como a Síndrome do Intestino Irritável (SII) ou síndrome do intestino permeável (leaky gut).

O leaky gut permite a entrada de toxinas e partículas de alimentos não digeridos na corrente sanguínea, potencialmente desencadeando respostas imunológicas sistêmicas e inflamação, que estão associadas a diversas condições, incluindo distúrbios metabólicos (colesterol e glicemia), doenças autoimunes, rosácea, síndrome das pernas inquietas e cistite intersticial.

 

 

 

O intestino e a microbiota intestinal exercem grande influência na nossa saúde sistêmica. Para alívio dos sintomas relacionados à alimentação e melhora das queixas associadas à inflamação intestinal, é fundamental tratar o IMO e recuperar o equilíbrio intestinal!

 

Considerações finais deste artigo:

1. O diagnóstico de IMO é feito através do teste respiratório de metano expirado.

2. É importante diferenciar o IMO dos outros distúrbios microbianos como SIBO e SIFO, apesar dos sintomas parecidos, os tratamentos são diferentes.

3. Identificar e tratar a causa do IMO é importante para evitar recidivas.

4. Para o tratamento de IMO dois antibióticos são associados.

5. Plano alimentar e suplementos ajudam na redução dos sintomas e na velocidade de recuperação do intestino.

6. Entender o intestino, a microbiota e as suas conexões com todo o corpo é fundamental para garantir a saúde digestiva e sistêmica.