SIBO após cirurgia bariátrica!

Muito comum, mas poucos diagnosticam!

Dra.Loana Heuko Valiati // 14/04/2025

Categoria: SIBO, cirurgia bariátrica

 

 

O nosso trato digestivo é perfeito! Exatamente tudo que se encontra na anatomia e fisiologia dos nossos órgãos da digestão, têm um propósito, desde a boca até o reto.

A nossa arcada dentária com função de rasgar os alimentos, a saliva que já inicia a digestão de carboidratos na nossa boca e lubrifica o conteúdo alimentar para passar pelo esôfago, o estômago mistura bem os alimentos e inicia a digestão de proteínas com sua produção ácida, direcionando os alimentos pré-digeridos para o intestino delgado.

O intestino delgado, com seus 6 a 8 metros de comprimento acomoda o bolo alimentar que sai do estômago, e o processo de digestão continua, agora teremos ação da bile e enzimas pancreáticas, após esse processo, o conteúdo intestinal percorrerá este longo trajeto de alças intestinais, onde será “massageado” para que assim ocorra a absorção dos nutrientes.

 

 

Chegando ao intestino grosso, as sobras do nosso processo digestivo serão armazenadas, até o momento de sua eliminação, aqui ocorre absorção de água e ação da microbiota intestinal, que fermenta os resíduos alimentares , que não são digeridos por falta de material enzimático humano.

São as bactérias que vivem no intestino grosso que fermentam as fibras da nossa dieta, e neste processo de digestão bacteriana, produzem substâncias anti-inflamatórias, antioxidantes e anticancerígenas, que são fundamentais para a manutenção do ambiente intestinal.

A microbiota é composta por trilhões de microrganismos, dentre eles bactérias, fungos, arqueias e vírus, que convivem em equilíbrio, a EUBIOSE, uma condição que mantém a nossa saúde intestinal.

Tudo contribui de forma sincrônica e ordenada para um processo digestivo adequado e saudável, desde as secreções digestivas até a anatomia de cada órgão, com seus formatos e angulações.

 

Quais são as alterações anatômicas dos principais tipos de cirurgia bariátrica?

1. Bypass Gástrico (Roux-en-Y)

Como funciona:
O estômago é reduzido a um pequeno reservatório (de cerca de 20-30 ml), que é separado do restante do estômago. Em seguida, uma parte do intestino delgado (o jejuno) é ligada diretamente a esse pequeno reservatório, desviando o duodeno e parte do jejuno.

Alterações anatômicas:

Redução do tamanho do estômago (restrição).

Desvio de parte do intestino delgado (má absorção).

Menor contato do alimento com o suco gástrico e pancreático.

Efeitos:

Menor ingestão de alimentos.

Menor absorção de nutrientes.

Alterações hormonais que reduzem o apetite e melhoram o metabolismo da glicose.

2. Sleeve Gástrico (Gastrectomia Vertical)

Como funciona:
Remove cerca de 70-80% do estômago, deixando apenas um tubo estreito com capacidade reduzida para receber alimentos.

Alterações anatômicas:

Redução significativa do volume do estômago (restrição).

Preservação do trajeto intestinal (não há desvio).

Efeitos:

Redução da ingestão alimentar.

Diminuição da produção do hormônio grelina (relacionado à fome), pois grande parte do estômago é removida.

Menor risco de deficiência nutricional do que o bypass, mas ainda requer acompanhamento.

3. Duodenal Switch (DS)

Como funciona:
Combina o sleeve gástrico com um desvio intestinal ainda mais extenso que o do bypass. Após a retirada de parte do estômago (como no sleeve), o intestino é reorganizado para desviar uma grande porção da absorção dos alimentos.

Alterações anatômicas:

Redução do estômago (restrição).

Extenso desvio do intestino delgado (grande má absorção).

Separação dos alimentos e das enzimas digestivas por grande parte do intestino.

Efeitos:

Perda de peso intensa e duradoura.

Alto impacto sobre o controle de doenças metabólicas.

Maior risco de deficiências nutricionais, exigindo suplementação rigorosa.

4. Banda Gástrica Ajustável (menos utilizada atualmente)

Como funciona:
Um anel de silicone é colocado ao redor da parte superior do estômago, criando uma pequena bolsa. O diâmetro do anel pode ser ajustado por meio de um dispositivo subcutâneo.

Alterações anatômicas:

Nenhuma remoção ou desvio de órgãos.

Apenas restrição da quantidade de alimento ingerido.

Efeitos:

Redução da ingestão alimentar.

Menor eficácia a longo prazo.

Pode causar complicações mecânicas e geralmente é menos recomendada hoje em dia.

Cada técnica tem indicações específicas, vantagens e possíveis complicações. A escolha deve ser individualizada, considerando o perfil clínico do paciente, suas comorbidades, preferências e capacidade de adesão ao acompanhamento pós-operatório.

A cirurgia bariátrica é apenas uma ferramenta — o sucesso a longo prazo depende de mudanças no estilo de vida e de um acompanhamento médico-nutricional contínuo.

 

 

Vou deixar um resumo fácil aqui para você entender melhor!

Tipo de cirurgia

Bypass Gástrico (Roux-en-Y)

Sleeve Gástrico

Duodenal Switch (DS)

Banda Gástrica

Técnica

Restritiva + disabsortiva

Restritiva

Restritiva + disabsortiva

Restritiva

Redução do estômago

Sim (criação de pequeno reservatório)

Sim (formato tubular)

Sim (formato tubular)

Não (apenas compressão)

Desvio intestinal

Sim (bypass duodeno e jejuno)

Não

Sim (bypass extenso)

Não

Perda de peso esperada

Alta

Moderada a alta

Muito alta

Baixa a moderada

Reversível?

Parcialmente (difícil)

Não

Não

Sim

Risco de deficiência nutricional

Moderado a alto

Baixo a moderado

Alto

Baixo

Impacto sobre o diabetes

Muito alto

Alto

Muito alto

Baixo

Popularidade atual

Muito comum

Muito comum

Menos comum

Em desuso

Quais as consequências pós- cirúrgicas?

Após avaliação dos dados acima, você poderá concluir que a cirurgia bariátrica leva à alterações anatômicas significativas, estas alterações foram projetadas para um propósito, para facilitar a perda de peso.

Mas, com certeza, um impacto ocorre no processo digestivo e na microbiota intestinal!

O estômago fica com seu tamanho significativamente reduzido, com isso, menor produção e tempo de contato com o ácido clorídrico, os alimentos podem chegar parcialmente digeridos no seu intestino, principalmente se você não está acostumado a mastigar muito bem durante as refeições.

O intestino também sofre alterações decorrentes da cirurgia, e como consequência, tem sua motilidade modificada também. Os alimentos que chegam no intestino, quando estão parcialmente digeridos, não são adequadamente absorvidos e servem de substrato, ou seja, servem de comida para as bactérias, que fermentam estes resíduos gerando gases, distensão, dor abdominal e diarreia principalmente.

Quando o processo digestivo acontece de forma inadequada vários sintomas podem aparecer e afetar a qualidade de vida do paciente: mau hálito, eructações, azia, refluxo, empachamento, inchaço, excesso de gases, gases mau cheirosos, desconforto ou dor abdominal e alteração no trânsito intestinal.

 

SIBO e cirurgia bariátrica!

A vida pós-operatória do paciente bariátrico necessita de acompanhamento contínuo. Para manutenção dos resultados, mudanças no estilo de vida devem ocorrer, como alimentação, atividade física, correção de deficiências nutricionais próprias de cada tipo cirúrgico. Ideal seria acompanhamento médico e nutricional de forma continuada.

Em relação ao processo digestivo em si, algumas funções também ficam prejudicadas, os alimentos mal digeridos e alteração de tempo de contato entre os alimentos e o intestino, levam a vários sintomas desagradáveis que afetam não só a qualidade de vida, mas também a microbiota intestinal.

 

 

O ácido clorídrico ajuda na pré digestão dos alimentos e no controle do crescimento de microrganismos no nosso trato digestivo, os movimentos intestinais impulsionam os alimentos no sentido distal. Mas com as alterações cirúrgicas, alimentos parcialmente digeridos chegam ao intestino, as bactérias que agora podem proliferar sem a acidez estomacal adequada, e se servem do banquete que recebem, e com mais substrato, mais crescimento!

Em alguns tipos de cirurgia como o Y de Roux, existem alças exclusas, ou seja, alças intestinais isoladas, sem passagem de alimentos, e aqui as bactérias podem encontrar um local tranquilo para proliferar.

A movimentação intestinal também se modifica, e com estase e excesso de substrato, temos uma situação previsível para acontecer! Supercrescimento de microrganismos!

O paciente pode apresentar SIBO (supercrescimento de bactérias no intestino delgado) ou IMO (supercrescimento de arqueias produtoras de metano).

 

Mas será que SIBO/IMO pós cirurgia bariátrica é muito comum?

 

 

Segundo estudos, 15% dos pacientes que são submetidos a cirurgia, já apresentam um tipo de distúrbio microbiano, devido ao estilo de vida inadequado, alimentação inflamatória, hiperglicemia e sedentarismo.

E após a cirurgia, dentro de um período que pode variar de semanas a meses, até anos, 40 a 60% dos pacientes poderão apresentar SIBO ou IMO.

O paciente com distúrbio microbiano e suas queixas pode ser subestimado, grande parte das vezes, a culpa de todos os sintomas cai sobre a cirurgia ou sob a alimentação, que presumidamente, deve estar ocorrendo de forma inadequada.

Na grande maioria dos casos, o paciente está seguindo as orientações dietéticas e médicas, e o que está ocorrendo é um supercrescimento de bactérias no intestino, o SIBO, e isto traz muitas consequências para o paciente bariátrico:

1. Perda de peso estaciona ou perde menos gordura do que o esperado.

2. Sintomas que eram leves ou inexistentes agora são moderados à intensos: gases em excesso, dor e diarreia.

3. Dificuldade em manter níveis adequados de ferro, ferritina e complexo B principalmente, apesar da suplementação.

4. O paciente também pode apresentar deficiência de vitamina D, zinco, magnésio e outras vitaminas.

5. Outros sintomas extra intestinais : cansaço crônico, problemas com sono, ansiedade, alergias, dores musculares e articulares.

Essas são consequências do supercrescimento bacteriano: bactérias nocivas que dificultam a perda de peso, que “roubam” os seus nutrientes levando a deficiências e sintomas exuberantes devido à fermentação dos alimentos.

O cirurgião deve estar atento a esta complicação pós cirúrgica muito comum e após suspeita solicitar o teste respiratório de hidrogênio e metano expirados para diagnóstico correto e tratamento efetivo.

 

 

Tratamento de SIBO!

O tratamento do supercrescimento bacteriano no intestino delgado inclui o uso de antibióticos convencionais ou fitoterápicos, suplementação intestinal para desinflamar o intestino, correção das deficiências nutricionais, restauração da parede intestinal e plano alimentar adequado, nestes casos a dieta low FODMAP.

Após o tratamento, o gastroenterologista deverá avaliar a necessidade do uso de manutenção de alguns suplementos que ajudam na digestão e movimentação intestinal diminuindo as recidivas, como enzimas digestivas, betaína HCL e gengibre.

 

Considerações finais deste artigo!

1. Quando a cirurgia bariátrica é bem indicada ela traz enormes benefícios!

2. Apesar dos inúmeros benefícios,é importante lembrar que a cirurgia bariátrica não é uma “solução mágica”: exige mudanças permanentes no estilo de vida.

3. A decisão deve ser individualizada, feita com avaliação de endocrinologista, nutricionista, psicólogo e cirurgião. A adesão ao acompanhamento pós-operatório é essencial para manter os benefícios e evitar complicações.

4. O cirurgião deve conversar com seu paciente e alertá-lo sobre prováveis complicações pós-cirúrgicas como o SIBO. Uma condição muito comum e que pode trazer sintomas e consequências indesejadas para o paciente quando ele fica sem diagnóstico correto.

5. No caso de suspeita de SIBO, solicitar o teste de hidrogênio expirado

6. O tratamento se resume ao uso de antibióticos, suplementos e dieta

7. Um tratamento de manutenção deve ser elaborado, de acordo com a necessidade de cada paciente, para evitar recidiva.