Intolerância à Lactose: Sinal de Algo Maior no Intestino?
SIBO e intolerância à lactose
Dra.Loana Heuko Valiati // 25/03/2025
Categoria: SIBO, intestino, intolerância à lactose

A importância da microbiota e do intestino
O intestino humano vai muito além da digestão. Ele abriga um verdadeiro ecossistema interno: a microbiota intestinal, composta por trilhões de microrganismos – bactérias, fungos, vírus e arqueas que desempenham funções vitais.
Estima-se que a microbiota pese até 1,5 kg do nosso corpo e seja responsável por digestão, produção de vitaminas (como K, B12 e biotina), defesa imunológica, regulação inflamatória e até equilíbrio emocional, por meio do eixo intestino-cérebro. Cerca de 70% da nossa imunidade reside no intestino. Quando a microbiota se desequilibra – o que chamamos de disbiose – sintomas digestivos e intolerâncias alimentares podem surgir, incluindo a intolerância à lactose.
Tipos de intolerância à lactose

A lactose é o açúcar natural do leite, e sua digestão depende da enzima lactase, produzida no intestino delgado. Quando essa enzima está ausente ou deficiente, a lactose chega intacta ao intestino grosso, onde é fermentada por bactérias, gerando gases, distensão, cólicas e diarreia. Existem três formas principais de intolerância.
A forma congênita é rara e aparece logo nos primeiros dias de vida, pois o bebê nasce sem a capacidade de produzir lactase. Ela costuma ser diagnosticada precocemente, pois os sintomas ocorrem mesmo com o leite materno.
Já a forma adquirida, também chamada de hipolactasia do adulto, é fisiológica e ocorre ao longo da vida. Em diversas populações, a produção de lactase naturalmente diminui após a infância. Estima-se que entre 65% e 70% da população mundial tenha algum grau de intolerância à lactose após os 50 anos.
Essa prevalência varia muito: em populações asiáticas e indígenas, pode chegar a 90%; em afrodescendentes, varia entre 30% e 60%; e em europeus, entre 10% e 20%. Nesses casos, os sintomas costumam ser leves a moderados e se instalam lentamente.

Por fim, a forma secundária ocorre quando a mucosa do intestino delgado está danificada, prejudicando a produção de lactase. Isso pode acontecer por conta de infecções intestinais, quimioterapia, uso excessivo de antibióticos, doenças inflamatórias intestinais como Crohn e retocolite ulcerativa, ou ainda pela presença de disbiose intestinal grave.
O nosso intestino funciona como uma verdadeira fábrica de “desmontagem de alimentos”, e quando está em disbiose e inflamado, as enzimas que se localizam na parede intestinal podem ter sua ação diminuída. Durante este período de inflamação, a pessoa se torna intolerante á lactose.
Nessa forma, a intolerância pode ser reversível, desde que a causa de base seja identificada e tratada.
A intolerância à lactose pode ser um sinal, não o problema em si!

É comum que pacientes relatem melhora parcial ou nula dos sintomas mesmo após retirar leite e derivados da dieta. Isso levanta um ponto importante: a intolerância à lactose, em muitos casos, é apenas um sintoma de um desequilíbrio intestinal mais profundo.
Quando a retirada dos alimentos lácteos não traz alívio significativo, é necessário investigar o que está por trás da baixa digestão da lactose. Muitas vezes, o verdadeiro problema está na integridade da mucosa intestinal ou na composição da microbiota.
Entre as principais causas intestinais que podem provocar intolerância secundária à lactose, destaca-se o SIBO – um distúrbio cada vez mais reconhecido na prática clínica.
SIBO: Supercrescimento Bacteriano do Intestino Delgado
O SIBO, sigla para Supercrescimento Bacteriano do Intestino Delgado, ocorre quando há excesso de bactérias na porção do intestino onde elas deveriam ser escassas, o intestino delgado.
Esse crescimento anormal leva à fermentação precoce dos alimentos, gerando gases em grande volume, distensão abdominal, dores, náuseas e alterações no hábito intestinal (diarreia ou constipação). Além disso, interfere diretamente na digestão da lactose, frutose e outros carboidratos fermentáveis.
O SIBO pode ser uma das causas por trás da intolerância à lactose que aparece tardiamente ou que não melhora com a simples retirada dos laticínios.
Estima-se que até 80% das pessoas diagnosticadas com síndrome do intestino irritável (SII) tenham, na verdade, SIBO como fator causal ou contribuinte. Ou seja, o quadro de gases, inchaço e intolerância alimentar pode ser apenas a consequência de um intestino com flora desorganizada.
Diagnóstico do SIBO

A forma mais comum e acessível de diagnosticar o SIBO é por meio do teste respiratório de hidrogênio e metano expirados. Nesse exame, o paciente sopra em tubos em jejum e após a ingestão de um açúcar (geralmente lactulose ou glicose).
Os gases exalados nas amostras são analisados para verificar se houve fermentação bacteriana precoce no intestino delgado. O teste é simples, não invasivo e pode ser feito em clínicas de gastroenterologia.
Quando há suspeita de intolerância à lactose com sintomas persistentes, esse exame deve ser considerado.
Tratamento do SIBO e cuidados com a intolerância à lactose

O tratamento do SIBO é personalizado e costuma envolver múltiplas abordagens. Podem ser utilizados os com antibióticos naturais (como óleo de orégano, berberina e alho envelhecido) ou antibióticos específicos como a rifaximina (Xifaxan). A escolha depende do perfil do paciente e do tipo de gás predominante no teste (hidrogênio ou metano).
Além do uso de antimicrobianos, recomenda-se uma dieta específica e temporária, como a low-FODMAP, com o objetivo de reduzir a fermentação. O tratamento completo pode durar de 8 a 12 semanas, dependendo da gravidade e de outros fatores que estão ligados ao SIBO.
Enquanto o intestino se recupera, é fundamental que o paciente com intolerância à lactose siga uma alimentação com pouca ou nenhuma lactose. No entanto, se a causa raiz for tratada, é possível que a tolerância à lactose volte ao normal ao longo do tempo.

Considerações finais deste artigo!
1. A intolerância à lactose pode surgir em diferentes momentos da vida e não deve ser tratada como um diagnóstico isolado.
2. A intolerância à lactose pode ser consequência de um desequilíbrio intestinal, como o SIBO , e não apenas de uma deficiência enzimática isolada.
3. Quando os sintomas persistem, mesmo após mudanças alimentares, é necessário aprofundar a investigação e buscar orientação especializada.
4. Se houver suspeita de SIBO o teste de hidrogênio expirado deverá ser solicitado.
5. Caso o SIBO seja diagnosticado, deverá ser tratado e a intolerância à lactose poderá ser revertida.
6. A saúde da microbiota é essencial para o bom funcionamento digestivo, e cuidar dela pode não só aliviar os sintomas, mas também reverter intolerâncias e melhorar a qualidade de vida de forma global.


